Conheça a trajetória da Agência Amazônia Real

Foto: Arquivo Amazônia Real - Elaise Farias e Kátia Brazil

“Nas nossas reportagens, mostramos ao leitor as contradições existentes nos grandes projetos de desenvolvimento e a forma que têm sido realizados, trazendo injustiça e impactos nas vidas das populações mais marginalizadas e excluídas”, cita Elaize Farias.

Elaíze Farias é jornalista há 20 anos e cofundadora da Agência Amazônia Real, atuou como repórter em jornais de Manaus como A Crítica, Diário do Amazonas e Amazonas em Tempo. Especializou-se na produção de reportagens sobre temas socioambientais na Amazônia com enfoque em povos indígenas e povos tradicionais, direitos territoriais, direitos humanos e biodiversidade. A agência foi fundada em julho de 2013, por três mulheres, com o intuito de mostrar para a sociedade assuntos referentes a vivencia dos povos marginalizados na Amazônia. Com a produção de reportagens aprofundadas a agência Amazônia Real escolheu priorizar e visibilizar esses grupos sociais.

Samaúma: De quem partiu a ideia para a criação da agência Amazônia Real?

Elaíze Farias: A agência de jornalismo independente e investigativo Amazônia Real foi fundada em julho de 2013, por três jornalistas mulheres: Kátia Brasil, Elaíze Farias e Liège Albuquerque, como organização sem fins lucrativos, inscrita nos órgãos competentes e sediada em Manaus, no Amazonas.  A ideia partiu de nós três, em um contexto de grandes mobilizações no país e de demissões nas redações dos jornais, situação esta (as demissões) que permanece até hoje. Durante este período (julho a outubro), a agência organizou suas atividades administrativas, planejou pautas e produziu reportagens até o site entrar em funcionamento, em outubro de 2013. Algum tempo depois, a jornalista Liège Albquerque optou por sair da agência. Desde então, a agência é dirigida por Kátia Brasil e Elaíze Farias.

S: Quais são os temas frequentemente abordados pela plataforma?

E.F: Entre os temas abordados no site da agência estão: desmatamento e mudança climática, violação dos direitos indígenas, direitos humanos, regularização fundiária, tráfico de pessoas, exploração de crianças e adolescentes, defesa das mulheres indígenas e não-indígenas, desvios de recursos públicos e contas públicas. A Amazônia é heterogênea e de dimensões continentais. Nas nossas reportagens, mostramos ao leitor as contradições existentes nos grandes projetos de desenvolvimento e a forma que têm sido realizados, trazendo injustiça e impactos nas vidas das populações mais marginalizadas e excluídas. Observamos que há, no geral, uma cobertura jornalística desigual sobre temas como hidrelétricas, mineração, garimpo, agronegócio, flexibilização de direitos territoriais, especulação de terra, grilagem, etc. Essas são atividades que impactam a vida das populações mais marginalizadas. Por isso, a Amazônia Real escolheu priorizar e visibilizar esses grupos sociais.

S: Como funciona a disponibilização de conteúdos para sites interessados no assunto?

E.F: A Amazônia Real disponibiliza o conteúdo do site para republicação livre, garantindo o acesso à informação da região amazônica, por meio da Licença Creative Commons, que permite a republicação gratuita por qualquer veículo de comunicação (inclusive os impressos), respeitando a citação da fonte e a permanência da edição original. Nossas reportagens, portanto, não são fechadas ou trancadas. Apoiamos ao máximo a plena democratização da informação. Queremos que nossas histórias sejam lidas, vistas, ouvidas e personagens como indígenas, quilombolas, mulheres, defensores de direitos ambientais e territoriais, etc, sejam conhecidas. O nosso diferencial é produzir reportagens sobre histórias nem sempre conhecidas e, preferencialmente, exclusivas, apuradas com rigor e profundidade. São assuntos que não são “populares” ou fáceis de serem consumidos, mas são extremamente necessários para a sociedade, para a democracia e, principalmente, para as personagens de nossas reportagens.

S: Como foi a adaptação para a plataforma em web desde o início visto que a Internet é um meio que avança diariamente?

E.F: A Amazônia Real, desde o início, esteve na Internet, aproveitando o terreno fértil que ela oferece. A equipe, que vinha de uma larga experiência de jornal impresso, se adaptou e foi buscar informações – lendo, pesquisando, dialogando com quem já tinha experiência, procurando exemplos em sites jornalísticos de outros países, em especial de profissionais que atuam no modelo que escolhemos, que é o jornalismo investigativo e sem fins lucrativos (algumas de nossas referências são agência Pública, do Brasil; Pró-Pública, dos Estados Unidos; El Faro, de El Salvador, etc.). Ao longo de quase cinco anos, o site da Amazônia Real foi se reconstruindo, seja com mudanças no layout, seja com a inclusão de outras formas de disseminação de conteúdo, como infográficos, jornalismo de dados, galerias de imagens, produção de vídeos-reportagens e documentários, que podem ser vistos na nossa plataforma no Youtube.

S: Quanto as parcerias com outros veículos de comunicação, a agência Amazônia Real, trabalha com o Jornalismo colaborativo? Visto que a cada dia a concorrência aumenta dentro dessas plataformas.

E.F: A Amazônia Real também passou a produzir reportagens em parceria com outros veículos. Entendemos que o conceito de “concorrência” entre as mídias, tão comum no jornalismo de outrora, sobretudo das grandes corporações jornalísticas, não cabe mais nos dias de hoje. Defendemos o jornalismo colaborativo. Produzimos reportagens, por exemplo, em parceria com os sites InfoAmazônia e com o Projeto Colabora. Também colaboramos e mantemos diálogo e intercâmbio com outras iniciativas de jornalismo investigativo, profundo e contextualizado no Brasil e em outros países.

S: Muitas pessoas acessam a plataforma, principalmente pesquisadores e estudantes de várias partes do país. Como funciona a visibilidade quanto a audiência da agência Amazônia Real no Brasil e no mundo?

E.F: Desde o lançamento em 21 de outubro de 2013, até os dias atuais, o site da Amazônia Real já atingiu um público de mais de 3 milhões de pessoas. Desse total, 90% dos leitores estão no Brasil, mas há audiência nos Estados Unidos, Portugal, Índia, França, Reino Unido, Espanha, Alemanha e Itália, entre os mais de 180 países que leem nossas reportagens. No Brasil, a cidade de São Paulo é onde temos o maior número de leitores do website, seguido de Manaus, Rio de Janeiro, Brasília, Goiânia, Belém e Fortaleza. Mas essa realidade não é regra, pois nos últimos anos temos conquistados muitos leitores regionais, certamente pela visibilidade que estamos alcançando. A Amazônia Real utiliza as redes sociais para divulgar e compartilhar suas produções, mas também atua como um canal de diálogo direto com os leitores, por meio das plataformas Facebook, Twitter, WhatsApp, Flirck e o Medium.

S: Quais foram as dificuldades encontradas durante a fase de implantação da agência Amazônia Real?

E.F: Os primeiros obstáculos foram de ordem financeira. O primeiro ano da Amazônia Real foi mantido exclusivamente com recursos próprios das fundadoras, apesar das tentativas (sem sucesso) de receber apoio do mercado publicitário. Também recebemos alguns apoios de leitores, através de depósito bancário, na conta da empresa. Esse apoio dos leitores, aliás, foram e continuam sendo fundamentais para a manutenção da agência. Continuamos incentivando para que continue. Paralelamente, também recebemos apoio de algumas instituições filantrópicas que ajudam na estrutura da agência.

S: Quais foram os desafios que vivenciaram no início da construção do site? E quais as vantagens e benefícios da plataforma?

E.F: Nossa experiência era apenas como jornalistas. Não tínhamos experiência administrativa. À frente de um empreendimento, precisamos recomeçar e estudar outras áreas até então pouco conhecidas. A Kátia Brasil, por exemplo, fez um curso de empreendedorismo no Sebrae. Nós mesmas fomos responsáveis por todo o processo burocrático de criação do CNPJ e, cadastro na Receita Federal, posteriormente, quando criamos a associação, elaboramos o estatuto, formamos o conselho fiscal e direção da Associação Amazônia Real. Quanto à criação do site, este foi feito em paralelo à parte administrativa. Contamos com apoio de familiares, amigas e amigos, que nos ajudaram desde a formatação do layout à criação do logo. Nos anos seguintes, fizemos alterações e, com recursos, pudemos atualizar o site, contratar suporte técnico, etc. Também contratamos um consultor financeiro.

S: Na sua opinião, para se fazer um bom jornalismo, é necessário dar liberdade para o profissional opinar sobre assuntos diversos que não estejam necessariamente vinculados ao site?

E.F: A Amazônia Real é uma agência de jornalismo. Produzimos reportagens. Mas temos uma seção de colunistas, que são especialistas em suas áreas, todas relativas à Amazônia e suas populações, que escrevem artigos opinativos. A importância desses especialistas ajuda a ampliar o debate sobre as questões amazônicas. A rede de colunistas é formada pelas seguintes pessoas: o repórter-fotográfico e jornalista Alberto César Araújo; o geógrafo e ambientalista Carlos Durigan, pesquisador multidisciplinar da biodiversidade e sociodiversidade de Unidades de Conservação e Terras Indígenas do rio Negro; o jornalista e cientista político Carlos Potiara Castro; a mestre em educação e especialista em Programação Neurolinguística – PNL, Elvira Eliza França; o antropólogo João Paulo Barreto, indígena da etnia Tukano; o jornalista Lúcio Flávio Pinto, único brasileiro eleito entre os 100 heróis da liberdade de imprensa, pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras; o historiador Juarez Silva, estudioso da temática e história das relações raciais e cultura afro-brasileira e africana; o ecólogo Philip Fearnside, cientista ganhador do Prêmio Nobel da Paz, pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), em 2007; a educadora Fátima Guedes, pesquisadora de conhecimentos tradicionais da Amazônia;  a historiadora Patrícia Melo, que desenvolve pesquisas em história indígena no Brasil e escravidão africana na Amazônia; e a jornalista Andreia Fanzeres, que coordena o Programa de Direitos Indígenas, Política Indigenista e Informação à Sociedade.

Site Amazônia Real

“Na Amazônia Real as narrativas começam pelas personagens e suas histórias. Essas personagens invisíveis é que nos levam a apurar e investigar as reportagens. Isso foi possível porque criamos um projeto com autonomia e liberdade nas escolhas dos temas a serem abordados, respaldadas na honestidade e no comprometimento com os grupos sociais com os quais escolhemos dar prioridade em nossas reportagens.” Kátia Brazil.

S: O site da Amazônia Real é bastante citado dentro das universidades, principalmente no curso de Jornalismo. Vocês acreditam que essa nova geração de jornalistas que estão sendo inseridos no mercado de trabalho estão preparados para colaborar com a sociedade levando informações qualitativas sobre a Amazônia e sua diversidade?

E.F: O jornalismo desenvolvido pela agência Amazônia Real chama a atenção do meio acadêmico da área de Comunicação Social regional, nacional e internacional, desde 2015. Ficamos muito felizes quando soubemos que alunos de Jornalismo ou de outras graduações e pós-graduação se interessam pelo nosso trabalho. E que também se inspiram nele. A Amazônia Real, por isso mesmo, atua também na formação de estudantes. Recentemente, realizamos a 1ª. Oficina de Jornalismo Socioambiental, em parceria com a Ong Climate Tracker, em Manaus. Acreditamos que é necessário contribuir para a formação das gerações mais jovens para falar sobre a região, especialmente sobre a populações que são vistas de forma estereotipada ou têm um espaço apenas secundário nas reportagens dos grandes veículos. Desde 2016, recebemos alunos para estágios na redação. O primeiro foi estudante de jornalismo Fernando Bezerra Mendonça, aluno da Universidade Federal de Roraima (UFRR), com uma passagem de dois semestres na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), dentro do programa Mobilidade Acadêmica, entre os anos de 2016 a 2017. Esse nosso projeto chama-se Treinamento em Jornalismo Independente e Investigativo da Amazônia Real. Em 2018, recebemos a agora jornalista formada Maria Cecília Costa, da turma e Jornalismo da UFAM. Em 2019, estaremos recebemos novos estagiários. Nós acreditamos que o jornalismo, como um serviço à sociedade, está cada vez mais vivo: não morreu e nunca morrerá. A Amazônia Real é fruto da reportagem, que é a essência do jornalismo.

S: Para que o site tenha visibilidade é preciso mantê-lo sempre atualizado de notícias e reportagens relevantes para a sociedade. Para isso, é necessário todo um suporte para que se consiga manter uma equipe de profissionais. Gostaríamos de saber como funciona o processo de manutenção do site?

E.F: A Amazônia Real, desde seu segundo ano de funcionamento, conta com doação da Fundação Ford, através de sua linha de Apoio e Acesso à Mídia e Democratização da Informação. A doação dá suporte administrativo e manutenção da agência. O apoio é repassado após aprovação de projeto e avaliado anualmente, como prestação de conta. Em 2018, a Amazônia Real recebeu apoio da organização Aliança pelo Clima e Uso da Terra (CLUA), para produção de grandes reportagens. A Amazônia Real também conta com apoio permanente de doação de leitores. As reportagens da Amazônia Real são, por escolha editorial, profundas, contextualizadas, investigadas, lastreadas em documentos, e só são publicadas quando toda a apuração é concluída. Quando necessário, também damos sequência, para o assunto não ser esquecido. Em 2019, vamos iniciar uma campanha de financiamento coletivo, na internet, devido ao aumento de demandas, especialmente neste contexto político do país, de forte retrocesso nos direitos das populações indígenas, quilombolas, ribeirinhos, trabalhadores rurais, defensores do meio ambiente, etc. Para garantir sua independência incondicional na defesa da liberdade de expressão, liberdade de imprensa e defesa dos direitos humanos, a agência Amazônia Real não recebe recursos públicos. Também não recebe recursos de pessoas físicas/jurídicas envolvidas com crime ambiental, trabalho escravo e violação dos direitos humanos.

S: Qual o perfil de sua equipe e colaboradores?

E.F: A agência trabalha, atualmente, com mais de 30 colaboradores na rede de profissionais nos estados da Amazônia Legal: Amazonas, Acre, Amapá, Maranhão, Mato Grosso, Rondônia, Roraima e Pará. Além destes, há colaboradores que estão no Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Paraná, Pernambuco e São Paulo. Em Manaus, a sede da agência fica no bairro Parque Dez. Todos os repórteres são remunerados. Os estagiários não produzem reportagens. Eles são contratados para treinamento e para aprender a fazer jornalismo investigativo. Também são apoiados e incentivados a participar de palestras e debates tanto em Manaus ou em outras cidades, para ajudar na sua formação.  É importante destacar que a Amazônia Real também defende e trabalha com a diversidade e a equidade étnica e de gênero, incentivando o protagonismo de grupos sociais muitas vezes marginalizados. Procuramos dar espaço às mulheres em nossas reportagens, pois muitas vezes, durante uma apuração, apenas os homens falam, assim como os personagens de grupos LGBT. Isso também ocorre em nosso trabalho, onde incentivamos a participação de mulheres, de negros e indígenas na nossa equipe.

Eis a atual equipe:

Editora Executiva: Kátia Brasil; Editora de Conteúdo: Elaíze Farias; Editor de Fotografia: Alberto César Araújo.Reportagem: Boa Vista e Pacaraima (RR): Nayra Wladimila e Yolanda Mene (foto); Belém (PA): Moisés Sarraf, Lúcio Flávio Pinto e Pedrosa Neto (foto); Manaus (AM): Maria Cecília Costa, Izabel Santos e Bruno Kelly (foto); Macapá (AP): Bianca Andrade e Anderson Menezes (foto); Cuiabá (MT): Keka Werneck e Marcio Camilo; Porto Velho (RO): Ana Aranda e Marcela Bonfim (foto); Rio Branco (AC): Fábio Pontes e Freud Antunes; São Luiz (MA): Erisvan Guajajara; Webdesign: Cajuideas; Social media: Maria Cecília Costa; Consultor fiscal: Eduardo Filipo.

S: Quais os principais projetos realizados acerca do conteúdo transmitido pela plataforma e premiações da Agência Amazônia Real?

E.F: A agência foi foco de uma reportagem do site do Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, instituição de ensino sediado no Estado americano do Texas. A reportagem recebeu o título “Agência de notícias independente busca dar visibilidade a personagens e pautas da região amazônica”.  A Amazônia Real também participou do projeto Jornalismo Digital Independente no Brasil, da estudante Daniela Lacerda, mestranda em Comunicação Social da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Também fez parte do estudo do jornalista brasileiro Fabiano Maisonnave para a Fundação Nieman Reports, da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. A Amazônia Real participa do Mapa do Jornalismo Independente, um projeto da Agência Pública, uma das pioneiras no jornalismo independente brasileiro. Em 2016, fomos informadas que o trabalho da agência era tema da dissertação de mestrado sobre Conceitos de Jornalismo Independente, Jornalismo Investigativo e Empreendedorismo, do jornalista e mestrando Gustavo Panacioni, da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), no Paraná. A história da fundação e o modelo de negócio da Amazônia Real estão entre os 20 exemplos do e-book “Vida Fora da Redação”, que conta ideias inspiradoras de jornalistas que apostaram em projetos fora das redações dos grandes empreendimentos da comunicação no Brasil. A Amazônia Real também foi citada pelo site BuzzFeed, em uma lista que apontou os “13 projetos que querem mudar o jornalismo brasileiro”. A Folha de S. Paulo destacou a criação da agência na reportagem “Microempresas jornalísticas surgem, mas modelo de negócio é desafio”, publicada em setembro de 2015. A Amazônia Real foi tema de dois estudos acadêmicos, voltados para a comunicação, entre eles, “Ponto de inflexão – impacto, ameaças e sustentabilidade: um estudo dos empreendedores digitais latino-americanos”, da organização espanhola SembraMedia, que contou com o apoio da Fundação Omidyar Network; e “Comunicação no Centro da Mudança”, de autoria da agência Juntos e Approach Comunicação, com sede no Rio de Janeiro.

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